Para garantir renda, executivos buscam negócio próprio


Para garantir renda, executivos buscam negócio próprio
Por Rafael Sigollo, do Valor Econômico
Foto Carol Carquejeiro

Perspectivas negativas no mercado de trabalho, cortes na remuneração e nos bônus, além da insegurança em investir o dinheiro em ações ou até mesmo em fundos de renda fixa. De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Franquias (ABF), Ricardo Bomeny, a soma desses fatores tem feito cada vez mais executivos a pensarem em um negócio próprio para garantir renda e estabilidade econômica sem depender do atual cargo, da empresa ou do bom humor da bolsa de valores.
"Em momentos de turbulência, os executivos procuram investir em si em termos de força de trabalho e aplicar seu dinheiro em algo que possam manejar de forma direta. Nesse sentido as franquias acabam sendo uma opção bastante procurada, pois representam um negócio já estruturado, com uma marca testada e aprovada", afirma. Dados da ABF mostram que, impulsionada pela crise, a procura por franquias cresceu mais de 20% no segundo semestre do ano passado, comparando com o mesmo período de 2007.
A previsão é que o setor cresça entre 12% e 13% em todo o país durante esse ano, sendo que grande parte deste percentual será devido ao investimento de executivos que saíram ou pretendem sair da iniciativa privada.
Deixar uma empresa para tocar o próprio negócio, ainda que com uma estrutura já montada, porém, exige estudo, planejamento e tempo, além de uma mudança de atitude. "O executivo vai precisar descer um pouco do pedestal", diz Marcelo Cherto, presidente do grupo Cherto, empresa de consultoria especializada em ocupação de mercado. "É preciso ter espírito empreendedor e estar presente no negócio o tempo todo. Afinal, você não terá mais a secretária, a área jurídica, a financeira e o RH para te dar suporte. É você mesmo quem resolverá tudo", completa ele, que tem sido procurado também por profissionais que não foram demitidos, mas ficaram sobrecarregados com a crise. "Muitos executivos estão fazendo sozinhos o que antes era dividido em até três pessoas. Obviamente não estão satisfeitos com essa situação e estão buscando uma saída", conta.
Outro fator considerado crítico para Cherto em relação aos executivos é o desconhecimento sobre suas fraquezas. Para ele, um profissional pode ser muito bom em vendas e estratégia, por exemplo, mas ruim em liderar equipes ou controlar as contas. "Como cada negócio tem suas particularidades, é preciso saber escolher um que permita usar suas habilidades e minimizar suas falhas. Buscar um sócio com características que complementem as suas pode ser uma boa solução."
O consultor e especialista em franquias Ricardo Rizzo, presidente da Rizzo Franchise, afirma que o excesso de confiança também pode comprometer o desempenho da loja. "Executivos tem uma tendência a achar que já sabem tudo sobre negócios e muitas vezes não fazem a lição de casa como deveriam quando assumem uma franquia. Acabam frustrados, pois realmente têm conhecimento e experiência, mas mesmo assim não conseguem os resultados esperados", afirma.
De acordo com ele, os segmentos de alimentação, moda e perfumaria são os mais procurados, mas existem 23 setores de mercado disponíveis. "As pessoas buscam nas franquias uma oportunidade de negócios, mas elas são um estilo de vida. É preciso ter uma visão realista, investigar e descobrir qual segmento tem a ver com seu modo de trabalhar e não simplesmente adquirir algo que está em alta no momento", aconselha.
Após atuar por mais de dez anos em uma empresa de embalagens plásticas, o gerente-geral Alessandro Piccirillo decidiu mudar de vida. "Ganhei experiência e acumulei capital na indústria privada, mas achei que já não tinha muito para onde crescer ali. Senti que estava preparado para ter meu próprio negócio e optei por comprar uma franquia", afirma.
Piccirillo fechou negócio junto com um sócio e a loja, dentro de um shopping, começa a funcionar em abril. Seu planejamento, porém, desafia a crise e já inclui a abertura de outra unidade dentro de três anos e uma nova expansão em dez. "A crise me ajudou a decidir o tipo de franquia. Descartei produtos com alto valor agregado e investi no segmento de alimentação, que é uma necessidade básica", diz.
Os especialistas em franquia lembram que não adianta pegar o dinheiro de uma rescisão de contrato, por exemplo, e gastar tudo na compra de um estabelecimento. Com exceção do primeiro mês, quando a loja é novidade, o começo de um novo negócio costuma dar prejuízo e é preciso ter reservas para continuar pagando as contas e investindo no negócio. "Geralmente as contas se equilibram no sexto mês e o capital inteiro volta em cerca de dois ou três anos", afirma Cherto.
Embora tenha certa liberdade para tocar o negócio, o franqueado deve cumprir regras, obrigações e seguir políticas estabelecidas pelo franqueador o que, em alguns casos, acaba trazendo conflitos. "Quando o franqueado é um executivo experiente e acostumado a tomar decisões, ele pode começar a questionar práticas e técnicas do franqueador, por exemplo. É comum ele achar que pode fazer melhor e isso pode arruinar o negócio", alerta Rizzo.

Bomeny, da ABF, afirma que para evitar esse tipo de situação, franqueador e franqueado devem conversar bastante e perceber possíveis incompatibilidades antes de fechar qualquer acordo. "A aprovação deve acontecer dos dois lados. Gasta-se muito tempo discutindo valores, mas não pode haver dúvidas quanto à gestão e ao funcionamento do estabelecimento."

Formada em bioquímica, pós-graduada em marketing e com MBA em finanças, Heloisa Tartuci atuou por quinze anos gerenciando multinacionais como Novartis e Roche. Nos últimos anos, enquanto comandava uma empresa que faz consultoria para o mercado farmacêutico, decidiu colocar em prática o sonho de ter o próprio negócio. Como já havia estudado cosmetologia, investiu em uma franquia do segmento e fez jornada dupla durante dois anos. "Minha irmã tomava conta da loja durante o dia e quando eu chegava em casa à noite fazia a contabilidade. Também acessava remotamente a câmera de segurança e o computador da loja para ver como as coisas estavam indo", lembra.

Hoje, dedicada em tempo integral às franquias, ela já tem três lojas em shoppings e outra virtual da mesma marca, totalizando 14 funcionários- na Roche, chegou a liderar 70. Mesmo com a crise, ela pretende expandir seus negócios em breve. "Os cosméticos são relativamente baratos e, quando a economia vai mal, acabam sendo uma opção bastante viável de presente, o que resulta no aumento das vendas. Em janeiro deste ano o faturamento foi 35% maior do que no mesmo mês de 2008", afirma.

Mudar a maneira de trabalhar foi uma das maiores dificuldades de Heloisa na hora de trocar a empresa pelo negócio próprio. "Nas organizações eu tinha de pensar na motivação dos funcionários, pleitear benefícios e conseguir mais recursos para minha equipe. Como empresária, eu também quero fazer tudo isso, mas ao mesmo tempo tenho de assumir a conta, controlar os gastos e decidir racionalmente o que dá pra fazer e o que pode ser adiado. Negocio comigo mesma", brinca.
Direito e Gestão Empresarial
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