Os negócios sociais


Artigo publicado no Jornal DCI (SP) • OPINIÃO • 26/3/2012

André Silva Spínola é advogado e gerente nacional de Desenvolvimento Territorial do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae)

Vamos retomar, muito resumidamente, um pouco do conceito de empreendedorismo. Esse termo deriva da palavra francesa entre preneur, que significa: "aquele que assume riscos e começa algo novo". Ser empreendedor transcende o simples ato de ser empresário, de ser dono de um negócio. Tem a ver com a forma de desenvolver alguma atividade, com ousadia, risco, geração de valor. Estamos falando de inovação também e, extrapolando um pouco, em mercados que podem ser explorados a partir dessas transformações. Com isso, temos a inovação e o risco como inerentes à verve empreendedora, que devem ser aliados à boa gestão do empreendimento. – Já o tema "empreendedorismo social" é razoavelmente novo. Há muitas referências de líderes que inovaram e arriscaram na defesa de interesses coletivos. É uma vertente de empreendedorismo social, mas focaremos no novíssimo viés do empreendedorismo social lucrativo. O setor ora apelidado de "dois e meio" em alusão ao impacto social buscado pelo terceiro setor e a lucratividade, alvo do segundo setor. O empreendedorismo social stricto sensuemerge nos anos 90, quando proliferam as organizações do 3º setor e a participação das empresas no investimento social. Daí chegamos ao empreendedorismo social com possibilidade lucrativa. Lucrativa sim, mas engajada, responsável, comedida e justa. Há uma verdadeira mixagem da responsabilidade social dos investidores e empreendedores com o capitalismo.

Boas ideias, desenvolvidas profissionalmente, buscando um impacto social relevante. Esse é o conceito. Utilização de estratégias de mercado para minimizar ou resolver problemas de pessoas. Partindo-se de premissas como lucro responsável e comedido, impacto social e empreendedorismo, há que se pensar em como buscar produtos, serviços e mercados adequados a essa realidade. Inovação, escala de produção ou crédito para os clientes são possíveis caminhos. Não há como falar em social com margens altas, como costumeiramente ocorre quando da entrada de um produto inovador e sem concorrência clara no mercado. Também não se pode atrelar taxas de juros escorchantes a essas operações, mesmo com o Brasileiro ainda preocupando-se mais com as parcelas do que com os juros. Obviamente que esses negócios estão vinculados à base da pirâmide, às classes C, D e E, que, no Brasil, respondem por 89% das famílias. São 168 milhões de pessoas, que detêm 56% da renda.

Presencia-se nos últimos 10 anos uma ampliação real da renda dessa população, fazendo que o mercado para os empreendedores sociais esteja cada vez mais atraente e efervescente. E refuto aqui que a escala é fundamental para que um negócio social obtenha êxito. Há os nichos, os mercados que diariamente são ocupados por micro e pequenos negócios. O Brasil é um país continental, com quase 200 milhões de habitantes e ainda muitos "gaps" a serem supridos e muita desigualdade a ser vencida, além de uma população ávida por consumir muitas coisas que ainda podem ser consideradas básicas. Boas ideias devem ser replicadas. Temos diversos exemplos de negócios setoriais e locais com belíssimo impacto social para uma comunidade menor. Equipamentos de energia solar e elétrica para agricultores familiares, provedores de Internet em cidades do interior e comunidades de baixa renda, entrega de correspondências nos morros cariocas, reciclagem de lixo, cartões de descontos para serviços médicos, enfim, uma gama enorme de negócios que vêm sendo desenvolvidos com um olho na lucratividade e outro na justiça social e redução das desigualdades de nosso país.


Direito e Gestão Empresarial

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O auxílio doença e o Empreendedor Individual/MEI

Planilhas gratuitas para auxiliar uma boa gestão financeira

Roteiro para elaboração de contrato de prestação de serviços.