Vamos falar de autonomia?

Por Bruno Barros, engenheiro e especialista em gestão de projetos no Sebrae
Mas afinal, o que é trabalhar com autonomia? Quero mostrar aqui que não tem nada a ver com anarquia, que cada um precisa saber o seu quadrado e que cada empresa precisa saber até onde pode ir. Trago alguns aprendizados, mas não tem fórmula mágica para todo mundo. O que sabemos é que ir no rumo da autonomia aumenta muito a responsabilidade dos executivos, quando eles existem, e das próprias equipes, mas no fim, todo mundo ganha.
O papel dos executivos
Os líderes da empresa precisam definir os desafios que a empresa tem de cumprir com prioridade e definir muito bem o porquê. A partir da definição, o objetivo é conseguir comunicar o que foi decidido, deixando bem claro a definição de sucesso. Todo mundo que olhar para os objetivos propostos precisam saber claramente, antes de fazer qualquer coisa ou saber como, de que forma saberemos se o objetivo foi atingido.
É claro que para definir esses objetivos todos os colaboradores podem ser ouvidos, para que o líder tenha a maior quantidade de informações. No entanto, no fim do dia é ele quem tem a responsabilidade dessa decisão e ele quem irá encarar o sucesso ou fracasso da empreitada. Os líderes têm a oportunidade de estar mais perto de informações sistêmicas, de estar perto do cenário como um todo. Por estarem no topo, fica mais fácil enxergar mais longe e definir melhor onde todos devem chegar.
Dois erros comuns podem acontecer após essa etapa. Um é quando o líder enxerga bem o futuro, mas agora quer descer do mirante e controlar “o como” todas as equipes vão fazer para alcançar o objetivo e “o que” vão entregar. Nenhum líder é genial o suficiente para conseguir tomar melhores decisões técnicas que todos os seus colaboradores. O outro é quando ele não se certifica de que comunicou bem a definição de sucesso do objetivo. A maioria das pessoas tem muita dificuldade de saber definir o que quer e não se preocupam em saber se foram entendidas. Vale lembrar que a responsabilidade maior é do emissor.
O papel das equipes
Agora o ponto de destino já está bem definido e existem 100 formas de chegarmos lá? Então, meu amigo, ninguém vai te dizer qual o melhor caminho. É contigo mesmo! A equipe vai ter que investigar muito bem o problema para poder saber como ele pode ser alcançado. Que solução irá atingir o objetivo ou até mesmo supera-lo.
Quando a definição de sucesso está clara, fica evidente a infinidade de formas que podemos trabalhar. É nessa hora que devemos nos preparar para levantar hipóteses e nos dedicarmos para que verificar se elas são válidas ou não. É aqui que o conceito de experimentação deve estar correndo nas veias das equipes autônomas. Não é muito produtivo gastar horas discutindo dentro do escritório qual é a melhor opção, o importante é colocar a mão na massa e ter a oportunidade de errar rápido, mas errar com qualidade e de forma controlada. Os erros devem ser encarados com maturidade e servirão para que a equipe chegue mais perto da melhor solução.
Existem boas e más notícias aqui. A boa é que a equipe não vai trabalhar por anos sem nunca saber direito se obteve sucesso ou não. Os resultados não são uma sensação de que tudo deu certo ou elogios dos líderes da empresa, eles representam algo muito concreto. A má notícia é que não tem como fugir da responsabilidade de nunca encontrar soluções que não resolvam o problema. E perceber que sua ideia não é tão boa quando se imaginava não é fácil para ninguém que não esteja acostumado com a situação.
Não é para todo mundo
Cada empresa tem sua história, sua cultura e seu nível de maturidade. Cada atividade dentro da empresa também tem características que permitem uma maior autonomia do que outra. Técnicos que fazem a contabilidade da empresa ou aditores de certo terão mais regras a serem seguidas do que os técnicos responsáveis pela criação de novos produtos.
Outro fator é que nem sempre o técnico está confortável para definir qual caminho quer seguir, pois prefere quem alguém faça isso por ele. E as vezes o líder tem informação o suficiente para dizer qual é o melhor caminho e deve meter a mão na massa. Inclusive, algumas coisas, como a implantação de um método de gestão novo, vêm mesmo de cima. Pode ser que todo mundo abaixo do líder possa estar acostumado a trabalhar de um jeito antigo e não estar enxergado as novas oportunidades. A fato de estar no topo e estar em contato com outras empresas, ajuda ele a encontrar formas de trabalhar mais eficientes.
No entanto, duas coisas podem mostrar que a empresa está no rumo certo. Uma é buscar de forma incansável a definição do que é sucesso, ou seja, os objetivos estão claros e todo mundo sabe onde deve chegar. Depois de tudo pronto, saberemos se deu resultado ou não. Outra é se apaixonar pela cultura da experimentação. Não tem fracasso, se sabemos onde queremos chegar e testamos diversos caminhos, não escondendo os erros. Nesse caso, deve valer mesmo que a ideia testada seja do presidente da empresa ou de uma equipe qualquer. Dessa forma, cada empresa certamente achará a melhor forma de trabalhar e irá melhorar cada vez mais.
Inspirações para o texto
Existem referências infinitas sobre o assunto. Uma leve pesquisa na Harvard Business School nos deixa inundados sobre a importância do assunto. No entanto, me sinto confortável de sugerir algumas inspirações que usei para o texto e um vídeo do Ricardo Semler que considero inspirador e que mostra que a autonomia tem dado certo há décadas em alguns lugares.
  1. Spotify Engineering Culture (legendado) – Parte 1 e parte 2.
  2. As ideias de Ricardo Semler
  3. As ideias do Livro Organizações Exponenciais sobre autonomia – Livro e Vídeo.

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