A proteção de dados não é o problema segundo Edward Snowden

Edward Snowden é um analista de sistemas norte-americano, ex-funcionário da CIA e atualmente considerado foragido da justiça dos Estados Unidos. Tornou-se mundialmente conhecido em 2013, quando vazou informações sigilosas do governo americano, revelando à imprensa informações sobre a espionagem eletrônica feita por aquele governo. Sua justificativa era que agia em defesa da privacidade dos cidadãos, fazendo o que considerava correto à luz da Constituição. Àquela altura e-mails, chats e históricos de navegação de milhões de pessoas eram acessados ilegalmente pelas agencias de inteligência americanas, inclusive da então presidente Dilma Roussef e vários outros chefes de estado. Um verdadeiro sistema de vigilância global massivo. Toda essa história pode ser melhor conhecida assistindo o documentário Citizenfour.
Apesar de tudo isso já ter acontecido há mais de seis anos, Snowden fez, por videoconferência, a palestra magna de abertura do WebSummit, numa espécie de entrevista com o jornalista investigativo James Ball, vencedor do Prêmio Pulitzer.
O centro da abordagem, como não podia deixar de ser, foi a privacidade dos cidadãos, passando pela obtenção de dados, lei geral de proteção de dados europeia, grandes corporações, dentre outras coisas. Muitas, informações, mas muitas mesmo, sobre cada viagem que fazemos, cada compra, cada telefonema dado, cada torre de telefone celular pela qual passamos, cada rede wi-fi que acessamos, os nossos amigos e relacionamentos, os sites que visitamos e cada linha digitada em e-mails e serviços de mensagem estariam nas “mãos” de um sistema cujo alcance é ilimitado, mas cujas salvaguardas não são. Se, no início, esse sistema foi concebido para enquadrar suspeitos de crimes e prevenir ações terroristas, algum tempo depois ele passa a ser utilizado com todos de forma absurdamente abusiva.
O início de toda essa jornada, que começou com a divulgação dessas informações, passa pelo senso de correção, a necessidade de se seguir as normas e a Constituição do seu país. Ao alegar que sempre se pautou pela correção, pela justiça, Snowden diz que “nunca havia bebido ou fumado” e que, ao se juntar à CIA, fez um juramento para defender seu país e a Constituição e não a agência ou mesmo o presidente.
Ao se ver envolvido “numa conspiração gigantesca”, avalia a quem deve lealdade: se aos termos de confidencialidade que assinou ou para a Constituição. Daí se desenrolam as denúncias, a fuga e o refúgio na Rússia. Ele identifica o impulso inicial para toda aquela selvageria, na busca por ferramentas necessárias para investigar crimes graves, para evitar atos de terrorismo. Mas a forma como tudo foi utilizado, e seus resultados, mostram que o que era para proteger o público foi utilizado para atacá-lo.
Passados seis anos e questionado sobre o que mudou a partir de todos esses acontecimentos, Snowden afirma que o mundo está mudando, mas ainda estamos em um ponto de vulnerabilidade primária, mesmo com a consciência dos problemas se desenvolvendo. Episódios de revolta ocorrem com cada vez mais frequência contra essa “predação” através desses sistemas, seja por parte de governos seja por parte de corporações. E ressalta com veemência os abusos de Google, Amazon e Facebook, que teriam esse tipo de comportamento invasivo intrínseco ao seu modelo de negócios. Seja a NSA, seja o Facebook, ele afirma existir um sistema entrincheirado que torna a população vulnerável, para o benefício de poucos privilegiados.
Mesmo não reconhecendo um conluio entre essas grandes corporações para violar os direitos individuais dos usuários, ele afirma que cada uma fez seu “pacto com o diabo”, construindo métodos de captação e compartilhamento de dados muito além do que a lei permite, e também manipulando o que pode e o que não pode ser dito na internet, decidindo o que pode e o que não pode ser compartilhado, além de entregar registros perfeitos de vidas privadas sob demandas comercial ou políticas.
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“A lei não é a única coisa que pode protegê-lo. A tecnologia não é a única coisa que pode protegê-lo. Somos a única coisa que pode nos proteger e a única maneira de proteger alguém é proteger todos. Obrigado e fique livre.”
Por outro lado, as atuais insurgências que se avolumam sinalizam uma amplificação do poder individual, a partir do uso de novas tecnologias por startups, organizações não-governamentais e ativistas de direitos humanos para tentar capacitar o público em geral e protegê-lo contra ameaças e vulnerabilidades, avançando na direção de um mundo mais seguro. 
Questionado sobre a importância da GDPR (Lei Geral de Proteção de Dados Europeia), ele considera que boa parte da lei é boa e está no sentido correto, mas ressalta que o grande problema não seria a proteção de dados e sim a sua coleta. A regulamentação correta da proteção de dados pressupõe que a coleta de dados seja adequada, não permitindo que que isso represente uma ameaça ou um perigo de espionagem indiscriminada de clientes e cidadãos. Snowden crê que, eventualmente, tudo vazará. Com isso a proteção difere-se bastante da coleta, uma vez que falhas sempre ocorrerão.
E, mesmo em relação às pesadas multas definidas pela regulação, ele considera que “a barra subiu”, mas que isso, por si só, é um “tigre de papel”, dando uma falsa sensação de segurança, pelo tempo que vai levar para os efeitos começarem a ser sentidos e pelos advogados capazes de minar o significado da lei.
Caminhando para o final de sua fala, ele agudiza a avaliação ao dizer que a geração depois dele não possui “mais nada”. Cada vez mais eles não têm permissão para possuir nada, fazendo alusão a toda invasão de privacidade que acontece pelo simples fato de se carregar um smartphone no bolso (triangulações com pontos de Wi-Fi, torres de celular).
Tudo seria muito abstrato, mas dados não são inofensivos, não são abstratos, uma vez que quase todos os dados que estão sendo coletados hoje são sobre pessoas. Não seriam os dados que estão sendo explorados, mas sim as pessoas. Não são os dados e as redes que estão sendo influenciadas e manipuladas e sim as pessoas. Cada um de nós estaria sendo manipulado.
Essa é a razão pela qual a vigilância e a coleta são um grande problema, porque precisamos confiar em todos na hostil jornada digital, em todos os roteadores, em todos os provedores de serviços, nas grandes empresas de hardware. Snowden alega enfaticamente que esse é um problema enorme porque não se pode confiar em nenhum deles, uma vez que agirão em seu próprio interesse e não no interesse do público em geral.


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